O jornalista Wing Costa, repórter da Gazeta Online, concede entrevista ao GEPeSP e conta sobre sua pesquisa para a matéria especial “A presença de quem foi. A dor de quem ficou.”

A matéria aborda o suicídio de maneira franca e expõe o impacto do fenômeno na vida dos sobreviventes, ou seja, aqueles que necessitam lidar com a experiência dolorosa da perda de uma pessoa querida.

O jornalista fala sobre o papel da mídia na prevenção do suicídio no Brasil.

Qual foi o motivo/razão que o levou a pesquisar o suicídio?

Eu sempre enfrentei muito de perto problemas envolvendo depressão, tristeza crônica; alguns sentimentos muito profundos, e às vezes, muito violentos. Mas socialmente sou uma pessoa diferente desse tipo de coisa e sempre encontrei na possibilidade de escrever, uma forma de me expressar verdadeiramente. Após a vivência com jornalismo, imaginei que esse seria um canal de projetar não só os meus anseios, mas os de muitas pessoas que podem passar pela mesma situação.

 

Além disso, o que o levou a dar atenção ao luto dos parentes e amigos de suicidas?   

Tenho um amigo (que acabou sendo “personagem” da matéria) que era um sobrevivente. O irmão havia cometido suicídio. Toda a situação era um grande tabu desde o momento em que fiquei sabendo sobre essa questão na vida dele e, apesar de ser uma pessoa muito aberta a qualquer tipo de discussão, todos os assuntos desapareciam quando chegavam próximos do tema e nunca por parte desse amigo. Achei que seria interessante mostrar como se sentem essas vítimas invisíveis de uma violência tão íntima e pessoal. Achei que fosse também uma forma de ajudar a desestigmatizar essas pessoas.

 

Como o editor e outros colegas da redação reagiram ao saber de sua reportagem?

Meu editor direto adorou a ideia. Se mostrou super disposto a entrar nessa jornada comigo. Mas ele saiu de férias. Então coube a mim um processo de convencimento de meu editor executivo e de todos os outros responsáveis pelo jornalismo do veículo. Foi complicado, porque existem formas de falar de suicídio e geralmente a maneira mais simples de fugir dessa situação de desconforto (escrever e entrar neste assunto) é simplesmente não falar. Em vez de falarmos diretamente, encontramos a solução de falar dos parentes, das outras vítimas que sofrem com essa violência. Assim cheguei aos enlutados.

 

Como foi o processo de pesquisa? Quais fontes foram mais importantes para você?

O processo mecânico da reportagem foi relativamente simples. Uma das fontes é um grande amigo, a outra é uma ativista do assunto. Ambos perderam parentes de contato direto. A partir deles, encontrei a psicóloga Daniela Reis, muito importante em todo o processo. Ela me direcionou nas leituras e na forma como tratar o tema sem agredir ninguém. Também tive em mãos o livro “O Demônio do Meio Dia: Uma Anatomia da Depressão”, que foi muito esclarecedor e de linguagem muito simples, de onde “bebi” muito para construir a matéria.

O processo psicológico, por outro lado, foi mais difícil. Meu editor direto estava de férias e temos uma relação profissional muito próxima, o que sempre me ajudou e deu base para poder construir boas reportagens. Confesso que ainda busquei a ajuda dele mesmo fora da redação, principalmente por uma estruturação emocional. Mergulhei muito fundo num tema que não tinha muita certeza de como iria se comportar. Cavalguei um cavalo muito arredio sem sela.

 

Como os entrevistados se sentiram ao serem entrevistados?

Nunca tive uma relação muito próxima com o amigo que acabou se tornando um entrevistado, mas ainda assim sempre o considerei um amigo, com uma relação transparente. Quando o abordei para tratar do assunto, a primeira reação foi de surpresa, mas a partir daí tudo evoluiu para uma confiança extrema. “Só vou falar do tema porque eu sei que você é quem vai fazer”, ele disse. Já a outra enlutada entrevistada eu não sabia muito bem como seria a reação. Porém encontrei uma pessoa de diálogo muito franco e aberto, o que só facilitou o processo. Todos demonstraram muita gratidão por poder falar sobre o assunto como parte de algo importante e não como vítimas ou culpadas por alguma coisa.

 

Há algum aprendizado/lição que você tenha tirado desse processo de confecção da reportagem?

Com certeza. A maior lição foi aprender a escutar, prestar atenção no comportamento e na forma como as pessoas se relacionam entre si e em como eu me relaciono com as pessoas. Às vezes, ouvir, estar próximo e fazer parte são muito eficazes.

 

O que você acha da mídia tratar o tema do suicídio?

Acho extremamente importante, desde que seja feito com responsabilidade.

 

Na sua opinião, a mídia possui papel na prevenção ao suicídio no Brasil? Qual?

Se considerarmos uma democratização da mídia, redes sociais e sites especializados também em mídia, sim. Agora se tratarmos apenas a mídia tradicional, acho que as instituições acabam tendo uma representatividade mais negativa que positiva. Acho que por muitas vezes a velocidade que a notícia demanda do profissional e a “sede” por audiência, clique ou manchetes pode ser nociva na produção de temas tão delicados. No entanto, acredito que estamos no caminho certo.