
IPPES no 6º Congresso da ABEPS
O Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) parti...
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“Hoje de tarde eu dou um jeito nisso. Não vou ser mais estorvo para ninguém”, escreveu uma adolescente de 16 anos para seus pais. Horas depois, matou-se, em desespero por não suportar a humilhação de ver uma foto íntima sua divulgada nas redes sociais por um ex-namorado.
Este caso de 2013, ocorrido no Brasil, é apenas um entre muitos episódios em que a internet se relaciona ao suicídio _ embora não haja dados exatos sobre a magnitude do problema. Não raro, jovens estão entre as principais vítimas do bullying virtual, o cyberbullying, que inclui intimidação, xingamentos e vazamento de fotos íntimas nas redes.
Os dados da ONG Safernet, que lida com segurança no mundo virtual, indicam que o cyberbullying vem crescendo. A ONG registrou em 2016 321 denúncias de cyberbullying na forma de intimidação e/ou discriminação pela internet; houve aumento em relação a 2015, quando foram notificados 265 casos. As mulheres são a maioria das vítimas, 65% do total. Registrou-se queda, segundo a Safernet, do vazamento de fotos íntimas: 301 casos em 2016, diante de 322 casos em 2015. Mais uma vez, mulheres são alvo de 67% dos vazamentos, indicando a necessária reflexão sobre gênero, machismo e cyberbullying.
A Lei 13.185, de novembro de 2015, instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, como forma de tipificar e estabelecer políticas de prevenção ao bullying e o cyberbullying. A invasão de aparelhos eletrônicos para obtenção de dados particulares é crime punido pela lei 12.737, apelidada de Lei Carolina Dieckmann depois do vazamento de fotos íntimas da atriz.
O GEPeSP está alerta para a explosão do tema do suicídio na internet e nas redes sociais, tanto que Comunicação e Saúde Mental é o eixo de uma de suas linhas de pesquisa. Este roteiro apresenta uma seleção de estudos sobre o tema com o intuito de colaborar para o debate. Como tem sido característica dos roteiros sugeridos, os textos trazem estudos realizados em lugares diferentes_ às pesquisas brasileiras se juntam aqui análises dos Estados Unidos e de Taiwan_ e com variados instrumentais teórico-metodológicos, articulando conhecimentos da Medicina, da Psicologia, da Comunicação e do Direito.
Uma das publicações traz ainda o resultado da imersão de um dos pesquisadores em grupos de suicídio existentes nas redes, permitindo que o leitor conheça parte das vivências e angústias experimentadas por quem considera o suicídio como ilusória possibilidade de solução para os problemas cotidianos. Não é uma leitura fácil, mas é necessária para ajudar na compreensão de uma forma de sofrimento que mistura limites do público e do privado _ e que transforma a exposição pública do sofrimento e da vergonha em punição para a própria vítima.
O roteiro traz um pequeno resumo dos textos e os links para acessá-los. Também fica aqui o convite para que o leitor acesse a biblioteca virtual do GEPeSP, que conta com mais de 400 títulos sobre suicídio, saúde mental, segurança pública, saúde do trabalhador e mortes violentas. Link para a biblioteca:
Boa leitura!
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A pesquisa examina como plataformas de mídias sociais reconfiguraram o conceito de interação social e analisa, a partir de uma amostra com jovens, como eles lidam com o cyberbullying. Participaram da pesquisa nove estudantes de idades de 16 a 21 anos de uma escola de ensino médio no Canadá. Os dados foram coletados pelo método etnográfico, incluindo a observação, documentos e entrevistas. A pesquisa analisa de que modo os jovens são continuamente desafiados por seus grupos de convívio nas redes a manterem um comportamento considerado aceitável _ e o que seria considerado aceitável. As conclusões apontam como cyberbullying é prejudicial a esses jovens permite a educadores refletir sobre como tratar o tema. Ao mesmo tempo, conclama empresas de mídia a prover formas de lidar com a questão.
A equipe produziu um documentário de três episódios chamado Man Up, explorando a relação entre masculinidade e suicídio, encorajando homens a discutir regras impostas a eles. Também foi feita uma campanha nas mídias sociais (Twitter, Facebook, Instagram, YouTube e Tumblr). A partir daí, os dados do Twitter foram usados para medir o engajamento das pessoas na campanha. Foram contabilizados 5000 likes e 2500 retweets, com cerca de 1 milhão de interações. As conclusões do estudo apontam que a campanha conseguiu influenciar a conversação no Twitter sobre masculinidade e suicídio, incentivando as pessoas a buscarem ajuda, quando necessário. A campanha também foi particularmente eficaz na disseminação de informações.
O estudo avalia a associação entre suicídio e buscas na internet sobre o termo suicídio, a partir de 37 expressões que representam maior risco de suicídio. Foram analisados dados de suicídio em Taipei (Taiwan) e as buscas correspondentes sobre suicídio feitas de janeiro de 2004 a dezembro de 2009. A investigação busca estimar a relação entre o suicídio e as buscas na internet para identificar potenciais fatores de risco que precedem a morte por suicídio. Os resultados mostram que buscas sobre palavras como “Depressão”, “divórcio” e “guia completo de suicídio” podem estar associadas a ocorrência de casos, e o estudo aponta a necessidade de dar atenção a essas buscas sobre termos chave, como estratégia de prevenção do suicídio.
O estudo busca replicar, com adaptações, uma pesquisa inglesa sobre conteúdos relacionados ao suicídio acessados na internet, mas focando em sites brasileiros. Foram utilizadas, em três sites de busca, doze expressões-chave, como por exemplo, suicídio; métodos de suicídio; suicídio indolor; suicídio rápido, entre outras. Foram analisadas as dez primeiras indicações de cada pesquisa, e a amostra incluiu 209 sites. O estudo conclui que, diferentemente do verificado no estudo original, no Brasil não foram encontradas páginas com conteúdo pró-suicídio, promovendo, encorajando ou facilitando atos suicidas.
5) “Suicídio, precisamos falar sobre – Cartilha Comunica que Muda – Dossiê Suicídio”, Nova SB
A publicação foi produzida pelo projeto Comunica que Muda, da Nova SB Comunicação, buscando entender o que e como as pessoas falam sobre suicídio nas redes sociais. A base do estudo é um monitoramento produzido nos meses de abril e maio de 2017, realizado via plataforma Torabit, para mostrar como o assunto é abordado na internet. Foram capturadas 1.230.197 menções nas redes. A publicação destaca principalmente para a discussão que se criou em torno das notícias sobre o crime virtual da Baleia Azul e a estreia da série 13 Reasons Why (Os 13 Porquês, em tradução livre) no Netflix. Outros assuntos alcançaram uma quantidade de menções bem menor. DE modo didático, claro e com muitas ilustrações, a publicação analisa as menções ao suicídio, faz um histórico breve da relação entre o tema e a comunicação social, traz dados, aponta sinais que devem ser considerados como alertas e indica formas de prevenção. Outro destaque desta publicação é a imersão de um dos participantes do projeto em grupos fechados sobre o tema. “O objetivo foi entender o que passa na cabeça desses jovens, que buscam nas redes grupos como uma tentativa de aliviar a dor e compartilhar suas angústias e frustrações cotidianas com seus semelhantes”, afirma a publicação. Não é uma análise quantitativa, mas um relato muito impactante do que o pesquisador observou.
O estudo busca entender se, por que e em que condições jovens reagem a posts angustiados nas redes sociais. Foram feitas entrevistas com 27 participantes. Eles apontaram fatores que os influenciam a responder a tais posts. Os resultados apontam que a relação de proximidade é o principal determinante para responder a um post do tipo. O estudo auxilia no entendimento das interações nas redes sociais.
O estudo analisa as consequências da violência doméstica na saúde mental de pessoas expostas ao problema. A amostra incluiu 232 pessoas vitimadas pela violência doméstica (77% femininas) e 232 pessoas não atingidas pelo problema. Nos dois grupos, foi analisada a saúde mental das pessoas 4 semanas antes e quatro semanas depois do incidente de violência doméstica, a partir dos perfis de internet e das mensagens. Os resultados mostraram que a saúde mental das vítimas de violência foi impactada, e o grupo demonstrou aumento dos sintomas de depressão, risco de suicídio e redução da satisfação com a vida. O estudo colabora para uma proposta de análise dos grandes dados nas redes sociais para identificar indivíduos com suscetibilidades na área de saúde mental.
O estudo descreve sites pró-suicídio e discute como o conteúdo desses meios podem influenciar seus usuários. Em termos metodológicos, trata-se, segundo os autores, de um estudo descritivo transversal, a partir da análise de conteúdo relacionado a suicídio de websites do Google, Youtube e Facebook. De acordo com a pesquisa, a principal motivação para procurar informações na ferramenta do Google foi a presença de transtorno psiquiátrico em 85,3%. Em contrapartida, apenas 35,3% das páginas procuradas ofereceram suporte a estes usuários sobre ao tema. Os autores alertam para o fato de terem encontrado no Facebook grupos privados que tendem a incentivar o ato suicida. A conclusão dos autores indica no sentido de que pessoas emocionalmente vulneráveis buscam informações sobre suicídio na internet e encontram um suporte frágil em relação ao tema, em termos de prevenção.
Numa abordagem jurídica, o artigo analisa as relações entre o cyberbullying e o e o direito fundamental à liberdade de expressão. O estudo parte de uma abordagem geral da internet e seu desenvolvimento no Brasil, estuda a esfera privada e a esfera pública e situa o debate no contexto da criação do Marco Civil da Internet. Os autores tomam o conceito de cyberbullying, as ofensas no meio virtual, e lembram que quem o pratica afirma estar agindo com base no direito da liberdade de expressão como forma de justificar as ofensas aos direitos à imagem e à honra. Os autores defendem que a liberdade de expressão, direito fundamental do ser humano, não pode ser considerada como absoluta, possuindo limites nos direitos de personalidade. “Ao final, entende-se que o cyberbullying é um problema de saúde pública mundial, uma vez que as consequências são devastadoras, de tal maneira que são necessárias tutelas jurídicas específicas para inibir a prática desses atos”, conclui o texto.
O estudo trata do Sexting, a prática de compartilhar textos e fotos sexualmente sugestivas, e do impacto disso na saúde mental dos adolescentes. A pesquisa tomou como base dados de 2015 entre adolescentes da Pensilvânia (EUA), para analisar como a prática de “sexting”, consensual ou não, se associava a questões como uso de drogas e saúde mental. Quase um terço (29%) dos estudantes disse que fez sexting de modo consensual. As adolescentes relatavam menos consenso em relação à prática. O estudo destaca que o sexting acaba se associando a sintomas depressivos, bullying, tentativas de suicídio e abuso de álcool. Entre as conclusões, o estudo aponta que experiências negativas acabam sendo associadas ao sexting, e indica a necessidade de aprofundar a reflexão sobre sexting e depressão.
Por Fernanda da Escóssia
Jornalista e professora universitária do IBMEC Rio; pesquisadora-associada do GEPeSP; mestra em Comunicação pela UFRJ e doutoranda em História no CPDOC/FGV

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