O suicídio é ainda um tabu na sociedade brasileira: seja na família, nas instituições públicas ou privadas, seja na mídia. Poucos são os momentos em que o tema é discutido. Essa resistência se deve a questões morais, culturais ou por receio de que ao abordá-lo possa ser tomado por outras pessoas como uma resposta possível ao seu sofrimento. No caso específico da mídia, o suicídio com frequência foi trazido como um assunto ligado a casos misteriosos e muitas vezes glamourizados. Os programas de TV, rádio e edições de jornais das últimas semanas, por outro lado, revelaram que é possível fazer diferente.
Quem não sabe do que se trata, pelo menos escutou vagamente sobre a série da Netflix “13 Reasons Why” ou sobre o tão falado e tão desconhecido desafio da “Baleia Azul”. Nunca se falou tanto sobre o suicídio como nas últimas semanas. As matérias produzidas confirmaram que é possível divulgar o tema com responsabilidade e qualidade. Contudo, apesar de acreditar que houve avanço, ainda há muito o que caminhar. Alguns veículos de mídia preservaram um posicionamento de negação do tema, contribuindo para que muitos aspectos do suicídio permaneçam encobertos.
De fato, sempre que o assunto é suicídio, os jornalistas e produtores de notícia refugiam-se nos perigos que o chamado “efeito Werther[1]” ou o “efeito imitação” causa, anulando a pauta ou, não raro, tratando-a como irrelevante. É claro que não se trata de apoiar a ideia de que os canais passem a tratar do assunto de qualquer forma. Esse sim é o perigo. O que não pode acontecer é permitir que adolescentes, pais, professores, amigos e familiares continuem sem informação qualificada sobre o assunto.
Os veículos de mídia não podem alegar que não sabem como tratar o assunto de forma a evitar o efeito imitação. Não é por falta de material, diretriz ou manual sobre a melhor forma de tratar o suicídio. A Organização Mundial da Saúde possui um manual específico para profissionais de mídia sobre como tratar o suicídio[2], a Associação Brasileira de Psiquiatria também possui material semelhante[3], e a Organização Pan-Americana de Saúde, além de ter um livro sobre o assunto[4], promoveu um workshop virtual sobre prevenção ao suicídio voltado aos profissionais de mídia[5]. Além disso, para qualificar o debate, os veículos poderiam lançar mão de forma mais recorrente dos dados estatísticos recolhidos pelo Ministério da Saúde e sistematizados no Mapa da Violência de cada ano[6], só para citar uma fonte de estudo confiável e com produção constante. Assim, não há porque o suicídio ficar à mercê de casos extraordinários para entrar na pauta das redações. Ele é um problema que só pode ser prevenido com ações cotidianas.
Ao ser questionado pela ombudsman do jornal sobre a ausência de cobertura sobre a “Baleia Azul”, o editor da Folha de S. Paulo Vinicius Mota respondeu que a cobertura do tema do suicídio “Depende do potencial noticioso implícito em cada caso, avaliado por exemplo pelo interesse público e pela reação que desperta nos leitores. Debates sobre o tema tampouco obedecem a regime especial de publicação”[7]. É por essas posturas que os veículos decidem apenas cobrir, na maioria das vezes, casos de suicídio envolvendo pessoas famosas, o que colabora para a glamourização do ato.
Há muitas lacunas de informação que cercam o assunto e jogam a sociedade em um terreno incerto e perigoso. À Mídia (com “M” maiúsculo para ser o mais geral possível) cabe mapear esses vácuos de informação e investigar, para trazer material consistente e responsável para o debate. A cobertura midiática dos últimos dias, em sua maioria, também evidenciou que é possível discutir o tema sem recair no efeito imitação. Mais do que parabenizar é importante cobrar que o tema seja tratado com a seriedade que demanda. Silenciar sobre o assunto é se eximir da responsabilidade social inerente ao trabalho de comunicação.
Pablo Nunes
Pesquisador do GEPeSP
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[1] O “efeito Werther” se baseia no livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, escrito por Goethe e publicado em 1774, sobre um rapaz que se mata devido a problemas de relacionamento e cujo exemplo teria provocado outros suicídios de jovens.
[2] http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/67604/7/WHO_MNH_MBD_00.2_por.pdf
[3] http://www.abp.org.br/portal/imprensa/manual-de-imprensa/
[4] http://iris.paho.org/xmlui/handle/123456789/31167
[5] http://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5222:opas-lanca-nova-publicacao-com-estrategias-das-americas-para-a-prevencao-do-suicidio-&Itemid=839
[6] http://www.mapadaviolencia.org.br/
[7] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa-ombudsman/2017/04/1877850-os-sofrimentos-dos-jovens—-e-de-seus-pais.shtml